A Europa dos Artistas

Comunicação apresentada no colóquio "Ser Artista em Portugal". promovido pelo Centro Nacional de Cultura, Maio de 1999

Publicada em Ser Artista em Portugal, edição do Centro Nacional de Cultura, 2000

 

A nacionalidade obsessiva é o pecado do poeta que cega - bem sei que havia a solidão das noites mais antigas, caríssimo Fernando -  mas quão mais portuguesa é a poliedria invisível do olhar da mosca, espécie intérmina.

Maria Velho da Costa, Da Rosa Fixa

 

Lo que verdaderamente hay es lo real, lo que integra el destino. Y lo real no es nunca sepcies, aspecto, espectáculo, objeto para un contemplador. Todo esto precisamente es lo irreal. Europa necesita curarse de su "idealismo" - unica manera de superar también todo materialismo, positivismo, utopismo-.(…)  Tenemos, sin duda, y cada vez más, que vivir con ideas, pero tenemos que dejar de vivir desde nuestras ideas y aprender a vivir desde nuestro inexorable, irrevocable destino.

Ortega y Gasset

 

 

 

Que papel se reserva para os artistas no espaço europeu? Que papel quererão desempenhar os artistas no espaço europeu? O que é, culturalmente falando, o espaço europeu?

 

A construção europeia, pelo menos desde que fomos convencidos a dela participar, responde à pergunta 'o que é que temos nós para dar à Europa?' com um conceito redentor: aquilo que na verdade constitui o valor excepcional da Europa é a diversidade das suas culturas. Assim, garantem-nos por um lado que a Europa, sendo uma só, é diversa. E, por outro, que quanto mais fragmentária for, mais una será. O pecado desta ideia é o de revelar, na sua infantil mas não inofensiva contradição, a bomba ao retardador que pode representar uma Europa que nunca soube impor-se como sonho cultural ou sequer político, e se manteve sempre confrangedoramente restrita à ênfase económica original. Ao usar como mito fundador tardio a caução de uma difusa Europa das culturas, sem tradução visível em ideários concretos que viabilizem um verdadeiro modelo de política cultural europeu, corre-se o perigo de produzir efeitos contrários aos eventualmente desejados. A discussão em torno do que se espera de uma Europa das culturas aí está, subitamente, acordando-nos para o facto de nunca ninguém ter pensado a sério nisso. Que significará, para cada Estado, para cada político e para cada artista nacional promover a cultura do seu país ou nação, afirmando-a no espaço europeu? O carácter afirmativo que se projecta em tal ensejo esconde uma tendência perigosa para recuperar ideários nacionalistas contra a ameaça da aculturação que representa um espaço livre de circulação de culturas.

 

Em cada país transformado em localidade, o primeiro passo para uma espécie de federalização das identidades nacionais, perdidas as competências macro-económicas e políticas dos Estados, será essa coisa a que chamamos cultura. Mas não foi preciso a UE para que as academias resistissem a considerar estrangeiros que escrevem na língua do seu país como autores nacionais. Onde fica, na verdade, a pátria? No lugar de nascimento, na língua, ou no espaço da cultura em que se esboça um conceito civilizacional? Recentemente, uma coreógrafa portuguesa residente em França, onde trabalha há 25 anos, Lídia Martinez, enfrentava a hostilidade dos seus pares, ou ímpares, franceses, por ter participado numa embaixada da cultura francesa em Boston. Beckett também é dificilmente considerado como um dos escritores da pátria linguística francófona, apesar de ter escrito tanto teatro em francês. Tratar-se-à, na verdade, de teatro francês? Ou será irlandês? Ou europeu?  Sentimentos equívocos acorrem-nos nestes casos ao espírito, e temos dificuldade em definir quem ou o que somos, como se estivéssemos ainda e sempre divididos com o facto de Fernão de Magalhães ter trabalhado para a coroa de Espanha e ser português e famoso, embora não necessariamente por esse facto.

 

O problema agrava-se quando imaginamos as políticas culturais europeias feitas para um espaço europeu limitado, onde aquilo que a Europa é manifestamente não respira. Onde termina a Europa das culturas? A herança europeia, pelas melhores razões, que lograram sobreviver às piores das motivações, é propriedade mundial. Para dar um exemplo, como afirmar no espaço da União Europeia a colorida e fascinante europeidade que em Lisboa desembarca vinda de Cabo Verde? À luz das futuras políticas europeias para a cultura, há um risco de se perder o que a Europa de facto é e representa para milhões de seres humanos em todo o planeta, em nome de políticas exclusivamente e perigosamente concebidas para os artistas nacionais, locais, com certidão, que urge apoiar e promover nas feiras nacionais e transnacionais, como se a arte e o pensamento europeus pudessem ser reduzidos ao equívoco dos mapas.

 

Curiosamente, o efeito menos estimado mas mais espantoso da união europeia foi, no domínio das mentalidades, o desaparecimento das fronteiras. A liberdade de poder atravessar, sem dar por isso, a fronteira com Espanha, depois de séculos em que, para afirmar a nossa identidade, nos ensinaram a ser diferentes dos espanhóis, é um bem absoluto em si mesmo. Talvez nos permita, inclusivamente, redescobrir a nossa verdadeira identidade. Ao olhar para a paisagem onde, do lado de lá de uma fronteira invisível, está a Espanha, verifica-se cada vez mais a evidência de a paisagem ser uma só. Tudo circula livremente de um lado para o outro, no espaço europeu? Também o verbo, o som, o signo e o gesto devem atravessar esse espaço. São os primeiros a saltar na liberdade de o poderem fazer, porque essa é a natureza dos artistas.

 

Mas os horizontes do exercício artístico são ainda em muitos casos definidos por limites fronteiriços. Que não se use o pretexto das culturas para reconstruir fronteiras que deixaram de existir no nosso imaginário. Há que evitar a todo o custo um recuo passadista de políticas culturais viradas para dentro, para o nacional, e promover o carácter aberto da Europa. Isto significa alterar as competências estratégicas e, naturalmente, as dotações financeiras, para que cada Estado da Europa invista numa Europa de fluxos culturais, não fechada sobre as suas fronteiras mas transmigratória, do atlântico ao Magreb, da América à África e ao Oriente. O melhor das culturas do mundo, longe de apuramentos de raça, sabemo-lo bem, sempre foi o crioulo,. Que a Europa proceda à grande mestiçagem das suas culturas. Que cada país se abra à Europa, e que a Europa se mantenha aberta para o mundo.

 

 

André Gago (Membro da Direcção do Sindicato de Trabalhadores de Espectáculos)

 

 

 

 

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