A MAGIA DA LUA NO CIRCO DOS SONHOS OU UMA OVAÇÃO PARA "O CIRCO DA LUA"
José Jorge Letria
Podia começar este texto sobre o livro "O Circo da Lua", de André Gago e Marina Palácios, dizendo o seguinte: ccEra uma vez um actor de talento e com grande experiência de comunicação com diversos tipos de público que decidiu escrever uma história para as crianças sobre o nascimento do circo e a origem do espectáculo, recorrendo aos ingredientes do maravilhoso. E assim nasceu um escritor". Dizer isto seria já dizer muito, mas para aquilo que eu entendo que deve ser dito seria manifestamente muito pouco. Por isso seguirei por outro caminho, que é a história do meu contacto com esta história.
Eu sei, como diz o espanhol Fernando Savater no seu livro "A Infância Recuperada", que "o narrador regressa sempre de uma longa viagem em que encontra maravilhas e também o horror". Quer isto dizer que o narrador, designadamente quando escreve para os mais pequenos, pode reiventar a realidade até ao limite da sua capacidade de imaginar e de partilhar os trabalhos da imaginação, o que é, as mais das vezes, uma tarefa hercúlea.
André Gago combina, desde logo no título deste livro que um júri da Associação Portuguesa de Escritores muito justamente decidiu premiar, dois elementos mágicos que associamos quase sempre à memória da infância: o circo e a lua. O primeiro, em regra, fez-nos ou continua a fazer-nos rir e ensinou-nos e conter a respiração nos momentos de maior risco e "suspense", e o segundo fez-nos e continua a fazer-nos sonhar, independentemente de Neil Armstrong nos ter roubado, nos idos de 1969, uma boa parte da magia anunciada desse fantástico encontro.
Ao combinar estes dois elementos numa narrativa de grande densidade poética, engenhosa e apelativa, André Gago conseguiu construir um texto belíssimo que é também uma parábola sobre a condição e a natureza humanas. Atemorizadas com o progressivo afastamento da lua e receando que esse afastamento pudesse ser o prenúncio do fim do mundo, as pessoas começaram a inventar expedientes vários para evitar esse afastamento. Consoante os meios utilizados para atingirem esse objectivo, foram-se transformando em palhaços, trapezistas e malabaristas. E foi também por via dessa soma de talentos e virtudes que nasceu o circo e que foi inventado o algodão doce.
Estamos aqui, sem qualquer forma de moralismo, perante um texto que, joga com os ingredientes do mito e que se aproxima, na lógica que o estrutura, da estratégia que presidiu ao nascimento de muitos mitos fundadores em povos, culturas e civilizações já muitos distantes de nós, no tempo que não no labor da imaginação. Ensinam-nos os antropólogos e os estudiosos das religiões antigas que sempre que o Homem não foi capaz de explicar racionalmente os fenómenos que o cercavam e transcendiam, recorreu à imaginação poética em estado puro para inventar os mitos. Foi assim que os povos da Antiguidade, nas suas fabulosas e sempre fascinantes cosmogonias, tentaram explicar o facto de o globo terrestre não cair no abismo do espaço e do tempo, o binómio noite-dia, a eterna parceria do sol com a lua ou mesmo as catástrofes naturais provocadas por vulcões ou terramotos, estes atribuídos, quase sempre, à justa cólera dos deuses, hoje muito mais radical devido às marés negras e a todas as outras vergonhosas e criminosas formas de destruição do ambiente. André Gago seguiu a mesma via, propondo-nos para o aparecimento do circo uma explicação poética que joga com a combinação dos medos e das virtudes naturais do Homem com a presença de um elemento tão omnipresente como é a lua, referência de luz de todos os nossos sonhos e mistérios.
O narrador busca sempre um público, mesmo que afirme escrever para a gaveta ou que, pensando exactamente o contrário, não saiba quem esse público é, a idade que tem ou o lugar geográfico em que se encontra. Porque é actor, André Gago sabe como se fala com o público, como se suscita e se mantém o seu interesse, como se trabalha para o seduzir e conquistar. Deve-se a esse tipo de experiência a consistente oralidade desta história que, nunca descurando a qualidade formal, tem sempre em vista a eficácia, critério e princípio que também é essencial para um contador de histórias, já que, se não tiver o estatuto de "autor obrigatório", corre o risco de ser posto de lado ao fim de meia dúzia de páginas, ou mesmo de menos. Claro que não vou falar aqui de autores de que só se lê uma página e meia mas se afirma ter lido e relido tudo só para não se perder o "comboio da moda". O pior é se alguém pergunta: " o que achas que levou X a matar Y e depois a decidir escrever o livro ?". Aí, só costuma haver uma resposta eficaz: 'Tor acaso até foi a parte do livro de que gostei menos", ou então: "dessa passagem não me estou a lembrar muito bem; devia estar a lê-la na altura em que os miúdos me chamaram".
Lendo "O Circo da Lua", sou levado a crer que houve dois factores que contribuíram para o nascimento deste livro e para a sua inquestionável eficácia narrativa. Um deles já o mencionei e resulta da circunstância de o escritor ser um actor experiente e dotado; o outro é o modo como o exercício afectivo da paternidade favorece o gosto de contar histórias que crescem com aqueles que amamos e vemos crescer, podendo eu confirmar essa relação de causalidade, pois comecei a escrever para crianças, já lá vão quase trinta anos, para melhor poder entreter e divertir os meus filhos. Por outro lado, sente-se que há, no modo de contar de André Gago, uma memória de infância que foi reencontrada na escrita deste livro. Eu que pertenço a uma geração em que os espectáculos de circo no velho Coliseu dos Recreios eram a mágica novidade de todos os Natais e de todas as Páscoas, quando rareavam as novidades, quando se ia ao Éden chorar com os filmes de Joselito e de Marisol e quando ainda não havia televisão ou estava, se tanto, a ensaiar os primeiros passos, recordo-me bem da magia da prática circense, que revisitei na sua versão mais poética através da leitura deste livro.
Devo salientar que são livros com a qualidade deste que contribuem para libertar a literatura para crianças e jovens do estigma de menoridade que durante décadas a fragilizou e descredibilizou. Houve, durante gerações, a ideia de que escrever para os mais pequenos era uma actividade de escassa responsabilidade talhada à medida de avós ociosas, de professoras primárias em tempo de aposentação ou de escritores que tinham averbado desaires no domínio do que poderemos designar por "literatura sénior". Nada mais errado e enganador. O escritor que opta pela escrita para os mais novos tem de ser, antes de qualquer outra coisa, um escritor, independentemente da faixa etária em que estão os seus leitores. Por isso, não pode descurar o rigor formal do que põe por escrito, nem confundir simplicidade com facilidade. Aliás, em literatura, como quase em tudo na vida, nada existe de mais difícil do que alcançar a sensação de simplicidade.
A magia contagiante de um livro como "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry, escrito em Nova Iorque, após a sua passagem por Lisboa e pelo Estoril, em Dezembro de 1940, altura em que se juntou a Jean Renoir, seu companheiro de viagem a bordo do "Siboney", resulta precisamente da compatibilidade entre a riqueza de uma imaginação encantatória e o extremo rigor de uma escrita que nunca perdeu de vista a carga poética e a eficácia narrativa.
Acredito que o facto de grandes escritores portugueses como José Saramago, Agustina Bessa-Luís ou Eugênio de Andrade, para já não falar de Sophia de Mello Breyner que o fez muito antes, já terem escrito para os mais pequenos vai contribuir decisivamente para desmenorizar( se a expressão me é permitida) esta área da criação literária, dando-lhe uma visibilidade e uma capacidade de afirmação de que tem carecido e que é visível no modo como a crítica, salvo raras excepções, a tem ignorado ou subalternizado, tantas vezes por mero snobismo.
Outro mérito deste livro de estreia de André Gago como escritor reside nas excelentes ilustrações de Marina Palácios, que não se limitou a criar desenhos para um texto, indo muito mais longe do que se isso ao conceber um espaço simbólico e de grande intensidade cromática em que a narrativa se inseriu harmoniosamente. Hoje é isso mesmo que deve esperar-se de um ilustrador. Na sociedade da imagem, ele deixou de ser um mero criador de "bonecos" para fazerem companhia às histórias ou aos poemas. Ele deve ser , sem prejuízo da função do escritor, a guarda avançada que conquista o pequeno leitor através do carácter apelativo das imagens que criou para dialogar com ele e com o próprio texto.
Neste livro, o ilustrador e o autor de texto celebraram um pacto de comunicação que contribuiu para fazer do livro, em última análise, aquilo que ele deve ser sempre : um objecto de prazer, que também é visual e táctil. As ilustrações de Marina Palácio levam-me a realçar a importância fulcral destes criadores de imagens no trabalho de comunicação com as crianças através do livro. E será bom que os editores reconheçam essa paridade efectiva, deixando de tratar os ilustradores como circunstanciais autores de ícbonecos" para povoarem o texto de um autor de que gostam.
Como autor e como observador atento deste domínio da produção literária, considero mesmo que a novidade e a qualidade, nos últimos anos, tem vindo do território dos ilustradores muito mais que do campo dos autores, que precisa de novas vozes e de novas propostas criadoras. André Gago, com este livro e com os que, seguramente, se lhe irão seguir, é uma das revelações de que estávamos à espera. Que venha, pois, para ficar.
"O Circo da Lua" tem tudo o que um livro precisa de ter para ser amado por quem o lê: tem ritmo e consistência narrativos, tem humor, tem beleza formal e tem um assinalável poder de sedução. Tem, afinal, tudo aquilo que o circo também tem para nos transmitir a magia que sempre o povoou e entrar na nossa memória afectiva, ao som de gargalhadas e ovações, para nunca mais sair e para ocupar o lugar das revelações que o tempo não se atreve a apagar.
Lendo este livro, apetece-me citar Jorge Luís Borges quando diz: "Escrever não é mais do que um sonho guiado". Aqui é disso mesmo que trata. André Gago conta-nos aquilo que bem pode ser apenas um sonho, em termos oníricos, e que pede apenas que lhe concedam a felicidade de ser narrado, de ser lido e de ser partilhado. A magia da escrita para a infância reside precisamente na vocação para a partilha, que muito antes de ser uma estratégia do autor ou do editor, tem de ser um acto de amor, o qual, não existindo, dará razão a Jean Cocteau quando afirmava: "Escrever é sempre um acto de amor; se o não for, não passará de um mero exercício de escrita". Merecem André Gago e Marina Palácios o nosso aplauso, mesmo no centro da pista, pelo excelente espectáculo que este livro consegue ser. De resto, uma narrativa que secasa bem com a imagem deve ter sempre a virtude de poder ser lida e sentida como um grande espectáculo. E, usando a estratégia narrativa de André Gago, apetece-me dizer: "E foi assim que nasceu a literatura".
Só me resta esperar que este cais de chegada ao qual André Gago acaba de aportar, trazendo na bagagem a paixão de contar e a experiência de comunicar, passe a ter um lugar especial na sua geografia afectiva, obrigando-o a voltar tantas vezes quantas aquelas que o público lhe pedir, para lhe dizer, com a ternura das palmas que nascem do coração, como gostaram da sua actuação neste circo iluminado pela luz imperecível do luar de todos os sonhos.
11 de Dezembro de 2002
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