Lazarim: Máscaras e Carnaval

Publicado na revista Tempo Livre, nº70, Fevereiro de 1997

 

Fotografias de Rui Cunha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando pensamos em Carnaval, imediatamente pensamos em máscara. E depois pensamos nas formas urbanas e massificadas de celebração do Carnaval: a proliferação de “gadgets” para partidas, as festas organizadas ou os corsos luso-brasileiros que são cartaz turístico de muitas regiões.

Mas de novo pensamos em máscara. Elemento constante em todos os Carnavais e que todos nós já calçámos, uma vez na vida. Ou que, uma vez na vida, nos inspirou terror.

A função mais antiga do Carnaval, e que ainda hoje se reconhece mesmo nas formas massificadas de festejo, é a de instalar temporáriamente, e com intuitos renovadores, um intervallum mundi: uma inversão da ordem das coisas que admite comportamentos transgressores da ordem estabelecida. O homem traveste-se de mulher, o jovem de velho, a criança de adulto, o iletrado em doutor de ciência, o cidadão sem poder em político.

Depois de um ano de rígidos comportamentos sociais, o Carnaval surge assim como o momento em que o Homem procede à crítica da Humanidade. Crítica de si, mas sobretudo crítica do outro: o indivíduo que se mascara para o Carnaval foi também construindo inconscientemente um acervo de registos sobre o comportamento dos outros, com particular incidência naquilo que neles há de mais hipócrita ou mais afectadamente característico. Elaborado e consciente, ou grosseiro e liminar, o travestimento em outro irá exaltar exactamente esses aspectos: o homem tenderá a encarnar os traços mais frívolos da mulher, personificando e levando ao extremo a atracção feminina tal como ele a vê  sem deixar de evidenciar os adornos, ou os postiços, que concorrem para essa atracção (que, de resto, de bom grado aprecia ao longo do ano). A mulher travestida em homem não deixará de caricaturar os seus hábitos, com destaque para a bebida e para a afectação marialvista. E, por esta ordem, os médicos serão mostrados como carniceiros, os sábios como loucos, os políticos como vendedores da banha-da-cobra. O Carnaval surge assim como um momento em que a comunidade se expõe à crítica dos seus valores e costumes, em particular os da sua história recente. E a máscara aparece como agente mediúnico dessa crítica. Porque, ao contrário do que precipitadamente somos levados a concluir, a máscara não se destina a esconder ou a servir de disfarce: com efeito, ela contribui mais para revelar do que para esconder. O indivíduo que não altera o seu comportamento depois de calçar uma máscara não sentiu real pulsão de mascarar-se. Mas se começar a demonstrar um novo comportamento, que podemos definir como extra-quotidiano, veremos surgir na nossa frente um ser inteiramente novo.

 

CARNAVAL E AGRICULTURA

 

Falámos em renovação e transgressão. Se a transgressão é dominante no Carnaval, tal como ele é mundialmente conhecido, já a ideia de renovação se prende com as indiciadas origens do festejo, que se crêem fundar nas Saturnais romanas. Origens, e desde logo funções, cuja perenidade se observa em algumas formas tradicionais de festejo.

No caso de Lazarim,  situada numa côncava de bacia profundíssima na montanha, nas proximidades de Lamego, a máscara permite estabelecer um elo com o carácter agrário de que certas festividades peculiares são testemunho no nosso país: as festas mascaradas do Nordeste transmontano.

Poderíamos incluir Lazarim, no Alto-Douro, como pedra de fecho num anel de festividades mascaradas que percorre toda a região trasmontana desde o solstício de Inverno em 23 de Dezembro, anel que se estende do concelho de Mirandela (Torre de D. Chama) a Vinhais (Ousilhão e Rebordelo), Bragança (Vale de Porco, Baçal, Aveleda, Grijó de Parada, Parada, Rio de Onor, Varge, Vila Boa), Miranda do Douro (Constantim), Mogadouro (Tó, Bemposta, Vale de Porco) Macedo de Cavaleiros (Podence) Freixo de Espada à Cinta e, finalmente, Lamego (Lazarim). A dominante da máscara em todos estes festejos, sob a designação comum de careto (*), permite estabelecer uma unidade formal de festejos mascarados do Ciclo de Inverno (**).

É assim possível, parece-me, falar de um autêntico anel trasmontano no que respeita ao uso de máscaras. Mas o Ciclo de Inverno é longo. Que têm, então, em comum os caretos que saiem à rua no dia 25 de Dezembro em Bragança com o carocho de Constantim, o chocalheiro de Bemposta,  o farandolo  de Tó, o velho de Vale de Porco? Precisamente o facto de todos personificarem rituais de origem agrária profundamente associados ao Inverno, tempo de gestação e incerteza quanto à renovação da vida, que dorme sob os campos semeados, invisível. E se considerarmos o Inverno grosso modo como o tempo que medeia entre as sementeiras e a Primavera, em que a vida volta a dar os seus sinais, não é difícil considerá-lo como a estação do ano em que apenas se pode desejar que tudo renasça. Tempo, por isso, propiciatório. Tempo de ritos. Tempo de renovação, de recomeço e, simultâneamente, de fecho de um outro anel: o do ciclo da vida.

 

RENOVAÇÃO: RECOMEÇAR SEM DÍVIDAS

 

A ideia de recomeçar do zero não é exclusiva daqueles a que a isso são forçados, ou dos que gostariam de o poder fazer, esquecendo o passado. O nosso conceito de memória, tanto para a História como para as estórias, é acumulativo. O mundo de hoje é um mundo entusiasta do futuro: tudo parece andar para a frente. Nesse devir têm lugar, mas não pesam, os êrros do passado e uma fé inabalável no futuro. Os êrros não são empecilho. Logo, o êrro de ontem poderá ser o de amanhã: isso não impedirá a marcha da História.

O Homem agrário é mais avisado: nada garante o futuro. O futuro depende de forças que estão (ainda? sempre?) fora do domínio da vontade do Homem. Haverá sempre, e apesar de tudo, Verão, Outono, Inverno e Primavera, num ciclo que sempre se há-de reiniciar até ao fim dos tempos. Mas desde o princípio dos tempos que a humanidade está marcada pelo estigma do pecado original. Independentemente do sistema mágico ou religioso, o conceito de expiação das culpas acompanha o Homem. Num conceito circular do tempo, que a dependência da agricultura acentua, tudo deve ser posto a zeros para poder recomeçar. Incluindo, portanto, os males provocados pelo próprio Homem. Se esses não forem resolvidos no tempo próprio, transitarão para o tempo seguinte, como espectros pairando sobre a comunidade e que provocarão a ira das forças que regem os elementos, estragando as sementeiras, arruinando as colheitas e aniquilando gados e criação. É pois desígnio colectivo que os conflitos e tensões não expressos sejam clarificados e, assim, resolvidos. Porque, como dizia o poeta Tarkowsky, «os sentimentos não expressos não se esquecem».

  

TESTAMENTOS, COMPADRES E COMADRES

 

Curiosamente, nesta função de renovação do tempo, através da crítica de costumes pública, a máscara tem um papel em geral pouco interveniente: apenas em Varge (Bragança), em Dezembro, os caretos são os protagonistas, lendo as comédias e representando duas ou três situações que merecem a sua crítica. Na aldeia vizinha de Aveleda, as comédias ou loas são lidas por um dos caretos, mas de máscara levantada, talvez por mera facilidade de elocução. As restantes máscaras ouvem e limitam-se a pontuar o discurso com os seus hi! gus! gus! Mas, em ambos os casos, e por se tratarem de Festas dos Rapazes, foram os que se mascararam os mesmos a escrever esses textos, onde a vida local é passada a pente fino. Acresce que, tanto aqui como nas restantes festas mascaradas, os caretos têm a sua função própria perfeitamente definida nos festejos. As variações de localidade para localidade são muitas, mas a máscara é em todas elas um elemento central.

Em Lazarim, dá-se um fenómeno paradoxal: a sua tradição mascarada é singular e extremamente interessante, mas a função da máscara encontra-se diluída entre outros elementos predominantes dos festejos.

O ponto central da festa dá-se na 3ª feira Gorda com a leitura dos Testamentos das Comadres e dos Compadres.

A leitura dos Testamentos não é feita pelos mascarados, mas sim por rapazes e raparigas em representação dos dois grupos.

Os Testamentos, tal como as Comédias ou as Loas das zonas raianas (cuja escrita, porém, é reservada aos rapazes), são escritos em verso e em segredo pelos rapazes (compadres) e pelas raparigas (comadres) solteiros. Também em segredo, ambos os grupos preparam uma figura antropomorfa representando o compadre e a comadre do grupo oposto, que serão queimados depois da leitura pública dos Testamentos.

Como o nome indica, trata-se de um texto em que, sob a forma de julgamento público, se legam à parte visada outras tantas partes de um burro, com o carácter jocoso que se imagina.

É a dado momento, que se sucede ao aparecimento e concentração dos caretos, que todos se juntam para ouvir as leituras. Hoje em dia, a leitura é feita num único local, por sinal sobre uma pobre construção em cimento. A queima simbólica dos compadres e das comadres, que os últimos versos do Testamento preconizam, surge assim, ela própria, desgarrada do conjunto que anteriormente se processava em três fases (***). Da mesma forma, hoje em dia a leitura é feita pelos representantes de cada sexo. Antigamente só os homens podiam proceder à leitura. Aliás, as próprias máscaras estavam reservadas aos homens, o que é, curiosamente, uma dominante Universal.

 

ENTÃO, E AS MÁSCARAS?

 

Neste conjunto, as máscaras desempenham um papel muito pouco activo. Limitam-se a pontuar a leitura dos Testamentos de uma forma um pouco mais histriónica do que a restante população reunida.

Porém, a sua fraca função é compensada pela sua singularidade, beleza e valor plástico.

Como coleccionador, interessaram-me naturalmente as máscaras produzidas pelo senhor Afonso, o mais antigo artesão que se dedica à sua fabricação. As seis máscaras que adquiri -- rei e raínha, cervo ou veado, diabo, homem com bigode e guarda florestal -- sendo caretos (ou, melhor dizento, caretas) abrem novas perspectivas temáticas que se não encontram nas restantes festividades mascaradas deste anel.

Nas festas do ano passado, além destas personagens, desfilaram mineiros, punks, personagens de banda-desenhada e até um galo -- que ganhou o primeiro prémio no concurso para a melhor máscara.

Num esforço de estimular a tradição de talhar máscaras, regra geral  em madeira de amieiro, foi introduzido na escola um tempo destinado a possibilitar essa experiência aos mais novos. E é visível o esforço e o entusiasmo dos adolescentes que em segredo fabricam as suas máscaras, próprias do seu universo de referências, e logram arrebatar o prémio ambicionado.

Mas, como vimos, a pulsão que leva um indivíduo a mascarar-se é o elemento fundamental que justifica o festejo mascarado.

Limitando-se a presença da máscara a um desfile de habilidades plásticas, algo se perde no que diz respeito à função comportamental. Creio ser legítima a crítica, já que todas as festas deste anel conheceram um novo impulso que foi induzido do exterior e que contemplou os aspectos  visíveis e cerimoniais dos festejos: indumentárias, danças, passos rituais. Mas como induzir comportamentos? Se nos foliões não há a pulsão que justifica a máscara, como justificá-la?

Aos meus olhos, as máscaras mais antigas, os caretos e senhorinhas, de carácter mais tosco e misterioso, ambíguas no que de Homem conservam e no que remetem já para o fantástico, eram as que conservavam comportamentos mais interessantes e coerentes e maior poder de fascínio. Talvez porque aqueles que as envergavam soubessem que não iriam ser contemplados por nenhum prémio, dado o facto de as caretas que calçavam serem por demais conhecidas, e tenham realmente decidido mascarar-se pelo prazer de ser outro, de inverter o seu lugar social e exibir essa inversão.

Por esta razão, me pareceram as belíssimas máscaras de Lazarim, no geral, mais espectadores do que actores da sua própria festa. Não será assim? Cabe sobretudo aos próprios definir o melhor uso para a extraordinária inventividade e tradição que o seu Carnaval comporta.

 

André Gago

 

(*) Designação dada àquele que calça a máscara, mas que conhece variantes locais, como se indica no texto.

(**) V: Máscaras Portuguesas, de Benjamim Pereira, JIU, 1973

(***) V: Máscaras de Carnaval (Lazarim)  de Alberto Correia, edição do Centro Cultural Distrital de Viseu, 1995.

 

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