Uma de quatro crónicas semanais intituladas As Palavras ao Vivo publicadas no suplemento Domingo do Correio da Manhã, em 2002
Não é fácil a um homem sozinho caminhar pelo casco velho de Havana sem ser arpoado a cada esquina pelas mãos das gineteras, que aceitam mal uma recusa, afinal que se passa com um homem que não quer saborear o melhor da vida por um punhado de dólares? Num velho café, uma delas lambe a cara a um velho turista sexual, provavelmente americano, o único subproduto a que o embargo fecha os olhos. O eixo das minhas deambulações tem um ponto de eterno retorno, a Bodeguita del Medio, para curta estadia ao balcão, o tempo de matar com um mojito a sede do clima caribenho.
O raio de acção foi-se alargando, e a Bodeguita passou a ficar demasiado longe. Procurei, então, os bares ou cafés onde os cubanos bebessem, pagando em pesos. Não havia. Lembro o velho cenário de uma taberna bela e vazia, aberta, mas sem nada para servir. Uma cerveja? Uma aguardente? Nada. Finalmente, quando quase me rendia à evidência da regra, surge a excepção. Perto da estação central de caminhos de ferro, numa pequena tasca servem-se frangos assados e cerveja a cubanos. Entro e sento-me ao lado de um grupo animado. No grupo está Magnolia. Grande, gorda, vestida de trazer por casa, cabelo grisalho e desarrumado, andará pelos cinquentas e...? Não se pergunta a idade a uma senhora. Ao lado o marido, pequenino e sorridente, um caribenho tisnado, camisa branca de modelo antigo. E uma amiga, olhos branquíssimos e pele pretíssima, o cabelo armado no alto da cabeça quase como um peñado, sombras do colonialismo espanhol, um dos vários que aguçaram o espírito da independência naquele povo.
Magnolia é uma mulher de razoável cultura, como todos os cubanos. Falámos de política, claro. Ela lembra-se dos tempos antigos, dos pais, e do que pôde dar aos filhos graças à revolução. Mas esta antiga marinheira da marinha mercante, que conhece os mares do mundo, está cansada, , como todos os cubanos. A dada altura, confessa-me que está a pensar encontrar forças no alardeado amor duma dessas religiões novas, de franchising. Então e a poesia, Magnolia? Uma mulher como tu, não se pode render a consolos desses, há que manter-se à altura do amor dos poetas. Então ela, gozona, declara-se-me em poema. Que mal entrei, uma chispa cruzou o nosso olhar. Que, quando numa mulher desperta o amor, os peitos se põem rijos e como que uma electricidade lhe percorre o corpo de alto abaixo. O marido ri-se a bandeiras mal pregadas. Rimo-nos todos, eu entregue a esta minha avó apaixonada que depois, mais a sério, me recorda a canção do Silvio Rodriguez, em que se fala de um unicórnio azul perdido. Pois sim, a poesia. «Mas a mim, Andrés», tratava-me sempre assim, «a mim não me chega já saber que o perdi. Eu quero vê-lo, a esse unicórnio azul! Onde está?!». Não lhe sei responder.
Compro uma garrafa de añejo, um bom rum de sete anos, e vamos bebe-lo puro para casa deles. É uma casa modesta num daqueles apartamentos com acesso pelas varandas interiores que compõem os quarteirões de Havana. Falamos mais, rimo-nos e bebemos. Magnolia já sabe que eu trabalho no teatro, e então, sentando-nos no sofá de napa verde, representa para nós a peça das suas perplexidades.
É um psicodrama, em que Magnolia corre a abrir a porta do apartamento e fala com um filho imaginário. De onde vem ele? Que traz ele nas mãos? Onde arranjou aquilo? Com que dinheiro? Se ele não é rapariga, não pode ser uma ginetera, então como fez? Terá roubado?
Estamos os três espectadores sentados no sofá, esmagados pela intensidade da representação de Magnolia. O marido e a amiga seguem a acção com uma atenção grave. O rapaz imaginário, vemo-lo, na ombreira da porta, enrascado a dar respostas evasivas. Então Magnolia parte para o frigorífico, falando sempre com o filho imaginário. Escancara a porta do adereço realista, para mostrar que está vazio. Fala ao filho das dificuldades da vida, de como tudo o que estão a passar exige um esforço para o qual já não há forças. Fala-lhe de manter, a todo o custo, a dignidade.
É uma peça sobre o fosso geracional, entre uma geração que não verá cumprir-se o sonho e outra, imbuída de outros sonhos, correndo para eles, nem que isso lhes custe a falsa partida da prostituição ou do roubo, por um par de ténis, uma bolsinha, uma boina, uma laca.
É uma peça sobre a Cuba contemporânea, um espectáculo único visto por três espectadores, em Havana, interpretado por Magnolia.
Talvez falasse de um tema universal, a esperança, que pode tomar a forma de um unicórnio azul, e a que corresponde a única alavanca que tem animado a humanidade a prosseguir o seu caminho neste imenso palco do mundo: a utopia. Dessa matéria de sonho, essencial à vida, vive, afinal, o teatro.
André Gago
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