O Incómodo do Teatro
Uma de quatro crónicas semanais intituladas As Palavras ao Vivo publicadas no suplemento Domingo do Correio da Manhã, em 2002
O número de Julho da britânica Blue Print traz um artigo sobre o teatro underground londrino que vale a pena traduzir parcialmente: «Os lugares são desenhados para rabos minúsculos, sem espaço para as pernas, e poucos têm ar condicionado. Não há luz natural. O preço dos bilhetes são autênticas extorsões, a menos que se opte por um lugar de visão restrita (termo teatral para indicar um lugar atrás de um pilar). Onde mais se pagaria 35 libras por uma peça de 90 minutos de que se desconhece a qualidade dos resultados? Claro que se paga o mesmo para ir ao cabeleireiro ou a um jogo de futebol. Mas isto são duas bem amadas instituições britânicas, e poucos clamariam que o teatro é de visão essencial nos dias que correm. Não quando um bilhete de cinema custa 7 libras. Então porque é que nos damos ao trabalho? Bem, quando funciona, é extraordinário».
Muitos dos que, no nosso país, não se dão ao trabalho de ir à procura desse
momento extraordinário que o teatro proporciona desculpam-se com a comparação com o teatro que se faz lá fora, sobretudo em Inglaterra, que actores, que dicção! E rematam com o horror dos lugares em que se faz teatro em Portugal, a falta de condições, assim não se atrai gente, marketing, marketing, o vosso reino por um pouco de marketing!
O que é surpreendente é haver quem se incomode por causa do teatro que não vê. Essa é mais uma demonstração do poder, sem dúvida incómodo, do teatro.
Dois dos monumentos teatrais que tive o privilégio de ver ao vivo (o Mahabarahta, encenado por Peter Brook, e A História Terrível e Inacabada de Norodom Sihanouk, Rei do Cambodja, encenado por Ariane Mnouchkine) não aconteciam em salas com todos os confortos, longe disso. E tinham uma particularidade: aos domingos, davam em versão integral, cerca de dez horas de duração, aquilo que durante a semana era dividido em três jornadas. Grandes passeios, precisamente. Salas cheias, com oitocentos ou mil lugares, para um público heterogéneo e em estado de graça e deslumbramento. Um velho teatro semi-esventrado, nos Bouffes du Nord, e umas bancadas corridas almofadadas (e com espaço para as pernas) no Théatre du Soleil.
Chegar ao teatro às 11 da manhã e sair por volta das 11 da noite! O que é que leva uma pessoa a abraçar semelhante jornada? Ao teatro, como a tudo na vida, vai-se porque se está vivo. Porque a nossa curiosidade nos impele a ir. Com a secreta esperança de que algo de extraordinário nos aconteça. Nem sempre acontece, é verdade. Mas quem não arrisca, não petisca. Além do mais, o teatro, um pouco como a verdade desportiva, tenta materializar um ideal que é susceptível de fracasso (qual o não é?). Se falha, nós como espectadores sentimo-nos frustrados, apesar de não ser nada connosco. E a nossa frustração nem sempre se manifesta tolerante para a extraordinária aventura de tentar que constitui um espectáculo, mesmo falhado. Mundo cão. Não faz mal, desde que se continue a ir ao teatro.
Não é o teatro que se faz lá fora que é melhor. Nem o teatro tem a primazia do incómodo: vide as bancadas à chuva e ao sol dos estádios, vide a bancada ardente pedindo almofadinhas das praças de toiros, vide os terceiro e quartos lugares de uma frisa do S. Carlos, tão caros como os da frente, mas de onde não se vê metade do palco, vide as cadeiras de cinema que nos fazem doer o rabo, vide os concertos passados em pé nos pavilhões e estádios, vide os apertos dos clubes de jazz.
Não, o incómodo do teatro é outro, forjado da sua própria ganga. O incómodo do teatro começa pela possibilidade de decepção e aborrecimento. Prolonga-se na singularidade de nos obrigar a viver um momento em que temos de dar atenção a outros seres humanos, investidos de contadores de histórias. E acaba, eventualmente, se tivermos sorte, no desconforto de lograr tocar-nos, entrando em nós como um veneno e até, conforme a picada e o fluxo sanguíneo, mudar a nossa vida para sempre.
É por isso que o teatro é incómodo: porque incomoda. E está sempre a reclamar atenção, a dar nas vistas, a sugerir-nos que mais vale uma noite assim-assim que a aridez de uma vida sem teatro.
André Gago
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