Uma de quatro crónicas semanais intituladas As Palavras ao Vivo publicadas no suplemento Domingo do Correio da Manhã, em 2002
Os átrios dos teatros, como os adros das igrejas, são lugares onde se acolhem, com algum sentimento de protecção, os deserdados deste mundo.
O átrio do Yifu Theatre, na Fuzhou Lu, em Xangai, tem a sua conta de chineses que passam ali a tarde, vestidos de pijama ou velhas roupas puídas, entretidos com o movimento das gentes que acorrem à bilheteira. Observam, com curiosidade distraída, a compra dos bilhetes, os preços, a preparação do acontecimento que será a estreia, à noite, da nova produção de uma velha ópera, a que não assistirão. Comem tofu comprado nas bancas que aromatizam as ruas, e despertam com entusiasmo redobrado da sua letargia ao verem entrar um ocidental. Correm à bilheteira, para fruir os quiproquós da transacção complicada que, para um turista branco, promete revelar-se a compra um bilhete. E não são defraudados: um engano na data leva-me a voltar lá a meio da tarde. Por intermédio de um inglês difuso e de gestos sem pátria lá se faz a troca, vivida pelos mesmos mirones como um acontecimento merecedor de comentários, uma história, enfim.
Às 19 horas o teatro está quase cheio. É uma sala ampla, normal, pintada numa espécie de verde aguado. Por todo o lado as câmaras procuram a reportagem, iluminando a plateia com os seus focos de luz. Parecem escafandristas dispostos a mostrar ao mundo as maravilhas de um qualquer fundo marinho. Um deles incide sobre mim. Um ocidental, naquelas profundezas! Estreio assim na televisão chinesa, como um peixe numa rara migracão, longe do seu habitat, sou notícia. O bruá sonoro da sala e o frenesi dos repórteres reduzem-se apenas um pouco quando as luzes baixam e o espectáculo começa. O início é um belo efeito de luz sobre uma poalha de água que desce da boca de cena, como as paisagens aquosas e brumosas da pintura chinesa, um triunfo saudado por um estralejar de aplausos, breve como serão todos. Na sala, durante a ópera, nunca haverá silêncio, e os aplausos pontuais são repiques bruscos que logo se calam. No final, quase ninguém bate palmas. Tudo é seco e breve. Em Portugal, quando um público parece não ter reacção, diz-se que só há chineses na sala. Talvez agora tenha compreendido a origem deste qualificativo.
A ópera, produzida pela Zhejiang Ningbo Yongju Opera, é uma história de fazer chorar as pedras da calçada. O título inglês é “Pawning the Wife”, ou seja, uma esposa e mãe, usada como moeda de troca, é forçada a deixar o casebre onde está o seu filho por causa do marido alcoólico que a penhorou a um poderoso para poder pagar o asqueroso vício . Na cidade, o senhor faz-lhe uma filha que a esposa, infértil, não pode ter. Mas o infortúnio leva-a a ter de partir de novo, perdendo a filha, para regressar à casa onde o filho, devido à incúria do marido, lhe morre nos bracos. Uma telenovela. A modernidade da encenação usa profusamente os efeitos de luz para obter efeitos dramáticos ingénuos. Projectores robotizados varrem a cena, num arroubo tecnológico iluminando a treva da china feudal. A história é piegas demais para arrancar uma lágrima, mas as pantomimas de extâse no sofrimento da jovem mãe entusiasmam os espectadores.
A ópera é uma das chamadas representações domésticas do Festival Internacional de Artes de Xangai, que inclui grupos ocidentais com propostas contemporâneas. Mas os espectáculos chineses são quase todos remontagens de velhos textos e temas tradicionais.
Depois de ser entrevistado por outra cadeia de televisão chinesa, eis-me de novo nas ruas de Xangai. Edifícios altos de fachadas brilhantes e formas aceradas erguem-se nos céus acima dos velhos bairros pobres repletos de estandartes de reclames vermelhos. Nas ruas, jovens chineses com roupas modernas e headphones atravessam as ruas juncadas de bicicletas e automóveis de vidros fumados. Os cheiros dos cozinhados mesclam-se, elevando-se, à bruma de Novembro e ao smog desta cidade que crepita debaixo dos pés, anunciando o futuro, rasgando caminho por sobre a velha China e a velha Xangai, sem olhar para trás. Quem quiser perceber o movimento do mundo, assistindo à vertigem da transformação da China naquilo que faz dela a emergente potência mundial, vá a Xangai. O espectáculo é esmagador.
Um dia, essa transformacão chegará também ao teatro chinês. Talvez então eu não consiga perceber nada da peca.
André Gago
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