Careto, 1984, óleo s/ tela com aplicações, 72x54, Colecção do Artista (detalhe)
AS MÁSCARAS PORTUGUESAS DE JOÃO VIEIRA (1)
As máscaras portuguesas são uma temática fortemente presente na obra pictórica de João Vieira . Autor que foi de numerosas cenografias para teatro, bem como de encenações, realizou uma performance na galeria Quadrum aquando da inauguração da sua exposição "CARETOS" (1984) , na qual se encontravam já algumas das máscaras que compõem esta colecção.
O seu interesse atávico pelo tema ( João Vieira é natural de Vidago, Trás-os-Montes ) está também por si documentado numa produção video que realizou, "FESTAS DOS CARETOS", em que registou os vários aspectos das festas mascaradas tal como se realizam em Torre de D. Chama. Este video constitui, a par do filme "MáSCARAS PORTUGUESAS" de Noémia Delgado, um dos raros testemunhos filmados dessa tradição.
O conjunto de máscaras que constituem esta colecção foi originalmente criado para o Teatro do Triângulo, para a peça O FÍSICO PRODIGIOSO, adaptação da novela homónima de Jorge de Sena.
Tendo-me sido legada pelo Pintor depois desse espectáculo, com a generosidade que caracteriza a forma de estar na vida de João Vieira, esta colecção de máscaras tem estado na base duma abordagem da teatralidade dos Caretos, concretizada pelos cursos promovidos pelo grupo de Teatro MEIA PRETA, onde a disciplina das máscaras portuguesas tem marcado presença, consubstanciada pela criação de um Grupo de Trabalho da Máscara Portuguesa, pela realização da Expedição a Trás-os-Montes/Dez. 90, pela criação do espectáculo Desfile de Caretos e, agora, pela realização desta exposição.
CARACTERIZAÇÃO DAS MÁSCARAS DE JOÃO VIEIRA
Num total de 22 máscaras, a colecção pode dividir-se em 4 grupos fundamentais:
1º Grupo) O Chocalheiro (20): talvez a mais impressiva de toda a colecção, foi utilizada no espectáculo do Triângulo como Diabo e assim vem sendo designada; construída em poliuretano expandido reforçado a papel e cola, é muito semelhante às máscaras de Bemposta que estão na origem do seu modelo. De expressão fantástica, apresenta uma maçã cravada na testa de onde parte uma cobra que desce ao longo da face esquerda e entra na boca, de lábios grossos e entreabertos; olhos grandes vazados; nariz grande e angular; chifres de ponta vermelha pontilhados a branco; testa enrugada e sobrolho de expressão carregada; a cor base é o azul muito escuro. A maçã, os lábios, a cobra e as narinas são pintadas a vermelho.
2º Grupo: 3 máscaras em couro (19, 21, 22) uma das quais cortada circularmente, com os olhos e boca vazados, nariz levemente moldado e apresentando rasgões cozidos que sugerem um envelhecimento do material; expressão fortemente fantástica e cavernosa. As outra duas máscaras são cortadas em formato oval, têm os olhos e bocas vazados e aplicação de um triângulo para os narizes, que foram cozidos às máscaras.
3º Grupo: 13 máscaras em lata, 6 das quais foram deixadas na cor do material. Das coloridas (23) destaca-se uma que possui um desenho a preto de barba e sobrancelhas e dois círculos vermelhos como maçãs do rosto (23 b). As restantes máscaras foram pintadas em tons escuros de castanhos e vermelhos, com manchas amarelas ou riscos feitos com uma ponta seca. De molde único, apresentam os olhos vazados em dois pequenos círculos e boca vazada, sendo o nariz representado por uma saliência martelada no material.
4º GRUPO: 3 máscaras em cortiça. Uma das máscaras (24) apresenta uma língua em couro pendente saindo da boca vazada e olhos circulares igualmente vazados. Outra máscara (25), também com dois olhos vazados, tira partido do próprio corte de sobreiro, apresentando um nariz pendente e deformado ladeado por duas grandes bochechas. A terceira mascara (26), de formato ovalóide, apresenta os dois olhos vazados e a boca sugerida por dentes rasgados em serra; uma aplicação de um rectângulo de cortiça sugere o nariz; a máscara é levemente pintada.
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Para o estabelecimento desta ordem hierárquica das máscaras, de um ponto de vista morfológico, socorremo-nos dos mesmos princípios aplicados por Benjamim Pereira para a classificação das máscaras portuguesas da colecção do Museu de Etnologia:
« A classificação das máscaras portuguesas tem de ser feita a partir dos materiais em que são confeccionadas, dado que são estes que em grande medida determinam fundamentalmente a sua estrutura formal (...) Os materiais utilizados na confecção destas máscaras são, em escala decrescente de importância, a madeira, o couro, a lata, a cortiça (...) ».
Se é verdade que as máscaras portuguesas não podem ser arrumadas em categorias funcionais, uma vez que elas « podem intervir (...) em várias (...) celebrações, independentemente da sua forma » (idem ), as experiências realizadas com as máscaras de João Vieira levam-nos entretanto a novas conclusões.
Com efeito, ao longo das numerosas sessões realizadas com essas máscaras, foi possível verificar que, à hierarquia dos materiais, regra geral correspondia também curiosamente uma hierarquia da funcionalidade, i.e., que salvo excepções derivadas da própria particularidade de cada máscara, a classificação por materiais se aplicava também as características dramáticas e expressivas do conjunto das máscaras.
Assim, se pela complexidade do seu fabrico e dos seus atributos simbólicos, colocamos em primeiro lugar o Diabo, ou Chocalheiro, verificamos na prática que essa máscara possui um ascendente de nobreza sobre todas as outras, enquanto que as máscaras de cortiça, que surgem em último lugar, nos aparecem como mais limitadas nas suas atribuições, menos ágeis nas suas acções, representantes talvez de um mundo menos móvel, o das próprias árvores que lhes forneceram o material.
As máscaras em couro, do 2º grupo, apresentam por outro lado uma "autonomia" entre si, ou se preferirmos um ascendente de auto-suficiência que parece derivar tanto da inquietação que geralmente provocam como do uso da palavra, que nelas surge como uma faculdade mais evidente que em todas as outras máscaras da colecção.
As máscaras em lata, por fim, precedendo as de cortiça, funcionam idealmente como um colectivo, irrequieto e cúmplice. O uso da palavra não sendo evidente, apresentam em contrapartida recursos de gestualidade rebuscada e, geralmente, brincalhona e provocadora. São por excelência os peões de uma exploração da superfície pelo mundo ctónico, os nossos pequenos "Nibelungos" dos Desfiles de Caretos, espectáculo de rua realizado com os alunos do mais recente Curso de Formação e que constituía, precisamente, uma descoberta do espaço do nosso mundo contemporâneo, no qual eram os "visitados" os mais surpreendidos.
(1) Texto incluído no catálogo da exposição “Caretos, velhos & Chocalheiros”, 1991
